O câncer representa um importante desafio para a saúde pública mundial, não apenas pela complexidade da doença, mas também pelas repercussões físicas, emocionais e sociais que podem acompanhar o diagnóstico e o tratamento. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o câncer compreende um amplo grupo de doenças caracterizadas pelo crescimento desordenado de células anormais, que podem invadir tecidos próximos e se disseminar para outras partes do organismo, processo conhecido como metástase.
Embora os avanços científicos tenham ampliado as possibilidades de diagnóstico e tratamento, a trajetória de uma pessoa com câncer pode envolver desafios que vão além do controle da doença. Cirurgias, quimioterapia, radioterapia e outras modalidades terapêuticas podem estar associadas a efeitos adversos e alterações que comprometem a força muscular, a mobilidade, a capacidade cardiorrespiratória e a realização das atividades cotidianas. A intensidade dessas repercussões varia de acordo com o tipo de câncer, o tratamento realizado, as condições clínicas e as particularidades de cada indivíduo.
Nesse contexto, o cuidado oncológico não deve se restringir ao tratamento do tumor. É fundamental considerar também a funcionalidade, a autonomia e a qualidade de vida do paciente, reconhecendo suas necessidades ao longo das diferentes fases da doença. Isso exige uma abordagem multiprofissional, na qual diferentes áreas da saúde atuem de maneira integrada para oferecer um cuidado individualizado.

1. O que é fisioterapia oncológica e qual é o seu papel no cuidado ao paciente com câncer?
A fisioterapia oncológica é uma área de atuação voltada à avaliação, à prevenção e ao tratamento de alterações funcionais relacionadas ao câncer e às suas diferentes modalidades terapêuticas. Seu objetivo é contribuir para a manutenção ou a recuperação da funcionalidade, o manejo de sintomas e a promoção da qualidade de vida, considerando as condições clínicas e as necessidades individuais de cada paciente.
Sua atuação pode ocorrer em diferentes momentos da trajetória oncológica. Antes do início do tratamento, a fisioterapia pode integrar programas de pré-habilitação, que buscam preparar o paciente para os desafios físicos associados a procedimentos como cirurgias. Durante o tratamento, as intervenções podem ter como objetivos preservar a capacidade funcional, reduzir o impacto de determinados sintomas e prevenir ou minimizar complicações. Após o tratamento, a reabilitação pode auxiliar na recuperação de capacidades comprometidas e na retomada das atividades cotidianas.
Entre as possibilidades de atuação estão os exercícios terapêuticos, o treinamento de força e de resistência cardiorrespiratória, os exercícios de mobilidade, as intervenções voltadas ao equilíbrio e à marcha, a reabilitação respiratória e o manejo de alterações como dor, fadiga e linfedema. A escolha das estratégias depende da avaliação fisioterapêutica, das características da doença, da fase do tratamento, das condições clínicas e dos objetivos estabelecidos em conjunto com o paciente.
A atuação fisioterapêutica também pode ser relevante nos cuidados paliativos, quando o foco do cuidado envolve o alívio do sofrimento, o controle de sintomas e a preservação da funcionalidade possível, do conforto e da qualidade de vida. Nessa perspectiva, a reabilitação não precisa estar associada exclusivamente à recuperação completa ou à cura: ela também pode contribuir para que o paciente mantenha sua autonomia e participe das atividades que considera significativas, dentro de suas possibilidades.
Assim, a fisioterapia oncológica deve ser compreendida como uma atuação individualizada, orientada por evidências científicas e integrada à equipe multiprofissional. Seu propósito não é tratar diretamente o tumor, mas cuidar das repercussões funcionais da doença e de seu tratamento, contribuindo para que cada pessoa tenha a melhor condição possível de movimento, independência e qualidade de vida.
2. O que as evidências científicas nos mostram?
A fisioterapia oncológica tem demonstrado potencial para minimizar os impactos funcionais associados ao câncer e ao seu tratamento. Entre suas possibilidades de atuação estão os exercícios terapêuticos, o treinamento de força e resistência cardiorrespiratória, a reabilitação respiratória e as intervenções direcionadas à mobilidade e ao manejo de sintomas.
Uma revisão sistemática sobre sobreviventes de câncer de cabeça e pescoço, pulmão e mama identificou benefícios de intervenções fisioterapêuticas em diferentes desfechos, incluindo força muscular, fadiga, equilíbrio e qualidade de vida. Entretanto, os resultados variam conforme o tipo de câncer, a intervenção utilizada e as características dos pacientes.
A revisão sobre reabilitação oncológica também aponta benefícios potenciais do exercício supervisionado na redução da fadiga relacionada ao câncer e na melhora da capacidade funcional. Os autores destacam, ainda, a importância da pré-habilitação e da integração da fisioterapia aos serviços de oncologia. Esses resultados reforçam o potencial da reabilitação, embora devam ser interpretados considerando as características dos estudos e das populações avaliadas.
Na oncologia, a escolha das intervenções deve considerar as evidências disponíveis, as condições clínicas e os objetivos individuais. Embora os estudos apontem resultados promissores, algumas áreas ainda necessitam de pesquisas de maior qualidade para estabelecer a eficácia das diferentes abordagens.
3. Outubro Rosa: câncer de mama e atuação fisioterapêutica
O Outubro Rosa é uma campanha de conscientização sobre o câncer de mama, com ênfase na prevenção, na detecção precoce e no acesso ao diagnóstico e ao tratamento. Além desses aspectos, é importante considerar as repercussões funcionais que podem surgir durante ou após o tratamento, como limitações da mobilidade do ombro, dor e linfedema.
Nesse contexto, a fisioterapia atua na avaliação e no manejo dessas alterações, buscando preservar a funcionalidade e melhorar a qualidade de vida. Uma revisão sistemática com metanálise em rede identificou resultados promissores de intervenções como programas multimodais e yoga para determinados desfechos, embora a certeza das evidências ainda seja limitada.
Assim, a fisioterapia integra o cuidado à pessoa com câncer de mama, considerando suas necessidades individuais e contribuindo para a reabilitação e a recuperação da autonomia.
Fonte: INCA – Câncer de mama
4. Ciência e humanização no cuidado oncológico
O cuidado oncológico deve considerar não apenas a doença, mas também as necessidades físicas, emocionais e funcionais de cada paciente. Nesse contexto, a humanização envolve respeitar a individualidade, as escolhas e a autonomia da pessoa, integrando conhecimento científico e acolhimento à prática clínica.
Nos cuidados paliativos, a fisioterapia pode contribuir para o alívio de sintomas, a manutenção da funcionalidade e a qualidade de vida, mesmo quando a cura não é possível. Uma revisão sistemática sobre intervenções fisioterapêuticas nesse contexto identificou resultados promissores para algumas abordagens, mas destacou a baixa certeza das evidências disponíveis, reforçando a necessidade de pesquisas mais robustas.
Dessa forma, uma assistência humanizada e baseada em evidências busca oferecer um cuidado individualizado, considerando os objetivos e as possibilidades de cada paciente ao longo de sua trajetória. Na prática, isso envolve estabelecer objetivos terapêuticos em conjunto com o paciente, respeitar suas preferências e adaptar as intervenções às suas condições clínicas e funcionais.
5. Considerações finais
A fisioterapia oncológica desempenha um papel importante no cuidado integral à pessoa com câncer, contribuindo para minimizar as repercussões funcionais da doença e de seu tratamento. Por meio de intervenções individualizadas e fundamentadas em evidências científicas, pode favorecer a mobilidade, a autonomia e a qualidade de vida em diferentes fases da trajetória oncológica.
Embora os estudos apontem benefícios potenciais das intervenções fisioterapêuticas, algumas áreas ainda necessitam de pesquisas mais robustas para fortalecer as evidências disponíveis e orientar a prática clínica. Além disso, o cuidado exige uma abordagem multiprofissional e humanizada, que considere as necessidades, as preferências e os objetivos individuais de cada paciente.
Portanto, reconhecer a importância da fisioterapia oncológica é compreender que o cuidado não se limita ao controle da doença, mas também envolve a preservação da funcionalidade, da independência e da dignidade. Cuidar de uma pessoa com câncer é olhar para além do diagnóstico, reconhecendo sua história, suas possibilidades e sua dignidade.
6. Para além da teoria: a perspectiva de quem atua na área
A literatura científica é fundamental para compreender as possibilidades e os desafios da fisioterapia oncológica. Entretanto, conhecer a perspectiva de profissionais que vivenciam essa realidade também contribui para aproximar o conhecimento acadêmico da prática clínica.
Para ampliar essa discussão, convidamos a Profa. Dra. Karoline Camargo Bragante, atualmente professora da Universidade Federal de Jataí – UFJ, para compartilhar suas experiências, reflexões e orientações sobre a atuação na oncologia. Agradecemos de maneira especial a professora Karoline pela disponibilidade e atenção na contribuição.
A seguir, apresentamos suas contribuições sobre as demandas da prática clínica, os desafios da assistência e as competências necessárias para estudantes interessados em seguir essa área.
1. A atuação na prática clínica
Como você descreveria a atuação do fisioterapeuta na oncologia e quais são as principais demandas encontradas na prática clínica?
O fisioterapeuta oncológico atua nos três níveis de atenção à saúde. Na atenção primária, especialmente nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), participa de campanhas educativas e de conscientização sobre fatores de risco, como obesidade e sedentarismo, além de reforçar a importância do rastreamento e da detecção precoce do câncer.
Na atenção secundária e terciária, sua atuação envolve a prevenção e o tratamento de alterações decorrentes da doença e de suas terapias, como restrições de movimento do ombro após cirurgias de mama, neuropatias periféricas associadas à quimioterapia e lesões cutâneas decorrentes da radioterapia. A professora destaca que algumas dessas complicações podem ser prevenidas ou minimizadas com acompanhamento fisioterapêutico adequado, como ocorre em determinadas estratégias de prevenção da radiodermite.
No ambiente hospitalar, o fisioterapeuta atua em UTIs e enfermarias, contribuindo para a recuperação pós-operatória, a prevenção de complicações relacionadas à imobilidade e à hospitalização e a preparação para a alta. Também participa dos cuidados paliativos, que não devem ser confundidos com a terminalidade, pois podem acompanhar o paciente durante anos, mesmo quando não há possibilidade de cura, com foco no controle da doença e na qualidade de vida. Após a alta, a reabilitação pode continuar em ambulatórios, no domicílio ou por telereabilitação.
Entre os desafios da área, a professora ressalta a falta de conhecimento sobre as possibilidades de atuação da fisioterapia oncológica e a escassez de profissionais especializados e capacitados. Quanto às principais demandas, ela destaca a importância de conhecer os tipos de câncer mais incidentes e o perfil epidemiológico de cada região. Fatores ocupacionais e características locais também podem influenciar essa distribuição. Como exemplo, menciona o câncer de escroto historicamente associado à exposição à fuligem entre limpadores de chaminés, ilustrando como determinadas atividades profissionais podem estar relacionadas ao desenvolvimento de alguns tumores. Assim, conhecer as necessidades de cada população é fundamental para direcionar as ações de prevenção, assistência e reabilitação.
2. Os desafios da assistência
Quais os principais desafios enfrentados pelo fisioterapeuta no acompanhamento de pessoas com câncer?
Para a professora, um dos principais desafios da fisioterapia oncológica ainda é o desconhecimento, tanto por parte dos pacientes e de outros profissionais da saúde quanto dos próprios fisioterapeutas. Ela relata que ainda existem profissionais que recomendam restringir os movimentos do braço após cirurgias de câncer de mama, uma prática antiga que pode favorecer complicações como o ombro congelado. Além disso, destaca a dificuldade de valorizar o trabalho multiprofissional, já que o conhecimento de um profissional sobre determinada área não necessariamente abrange todas as necessidades da reabilitação.
Outro desafio é a falta de preparo específico de alguns fisioterapeutas generalistas para atender pacientes oncológicos. A professora exemplifica essa situação ao mencionar o uso de recursos terapêuticos sem a devida consideração do histórico oncológico e das condições clínicas do paciente. Também cita o mito de que a drenagem linfática poderia espalhar o câncer, ressaltando a importância de compreender melhor a doença e de fundamentar as condutas em conhecimento científico.
Segundo ela, essas lacunas dificultam o acesso dos pacientes a um atendimento adequado e tornam o trabalho de conscientização contínuo e, muitas vezes, desgastante. Por isso, considera importante fortalecer a divulgação científica e incentivar a participação dos profissionais em associações da área, contribuindo para o desenvolvimento e a valorização da fisioterapia oncológica.
Por fim, a professora questiona a ideia de que essa seja uma área marcada apenas pela tristeza diante da possibilidade de morte. Para ela, o maior desafio não é necessariamente acompanhar pacientes em situações graves, mas combater a percepção de que não há mais nada a fazer quando a cura não é possível. Mesmo quando não é possível curar, ainda há muito a fazer para promover qualidade de vida, funcionalidade e dignidade. Ela destaca que o objetivo é oferecer o melhor cuidado possível, permitindo que o paciente viva com assistência adequada até o último dia de sua vida.
3. Orientações para futuros profissionais
Quais conhecimentos e competências você considera fundamentais para estudantes de Fisioterapia que desejam seguir a área oncológica? Deixe também um conselho para quem pretende construir uma trajetória profissional nessa área.
O principal conselho é buscar especialização e experiência prática na área. Embora algumas universidades estejam incluindo a Fisioterapia Oncológica em suas grades curriculares, a professora ressalta que a existência de uma disciplina não garante, por si só, uma formação aprofundada, especialmente diante da escassez de docentes com experiência específica na área. Por isso, recomenda investir em uma pós-graduação e buscar cursos e vivências clínicas de acordo com o campo de interesse. Mestrado e doutorado, segundo ela, são caminhos especialmente importantes para quem deseja seguir a pesquisa ou a carreira acadêmica, mas não são requisitos obrigatórios para todos os profissionais.
A professora também destaca a importância de trabalhar em uma área com a qual exista identificação profissional. Ela compartilha sua experiência como fisioterapeuta intensivista, função que exerceu por questões burocráticas, apesar de não ser sua área de maior domínio. Essa vivência contribuiu para um período de intenso desgaste profissional. Em contrapartida, atuar em sua área de especialidade proporciona maior segurança para avaliar cada paciente, identificar suas necessidades e planejar intervenções. Para ela, perceber a diferença que o atendimento pode fazer na vida do paciente e de sua família é uma das maiores recompensas da profissão.
Outro ponto importante é o envolvimento coletivo. A professora incentiva os estudantes e profissionais a participarem de associações, divulgarem trabalhos científicos e frequentarem congressos de atualização. Segundo ela, a valorização da Fisioterapia Oncológica também depende do engajamento da própria categoria na defesa e no fortalecimento da área.
Por fim, reforça que a formação deve acompanhar os interesses de cada profissional: quem deseja trabalhar com câncer de mama, por exemplo, pode buscar cursos específicos, enquanto quem pretende atuar com transplante de células-tronco hematopoiéticas ou cânceres hematológicos deve procurar formação e experiência direcionadas a esses contextos. O conselho é se especializar, buscar vivência na área, continuar estudando e se envolver coletivamente para fortalecer a profissão.
A professora também aproveita a oportunidade para convidar os estudantes e profissionais a participarem do X Congresso Brasileiro de Fisioterapia em Oncologia (CBFO), previsto para Curitiba, no próximo ano, destacando a importância do encontro para a atualização científica, a troca de experiências e a valorização da especialidade.
REFERÊNCIAS
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GAUCHEZ, Luna et al. Recommended physiotherapy modalities for oncology patients with palliative needs and its influence on patient-reported outcome measures: a systematic review. Cancers, v. 16, n. 19, art. 3371, 2024. DOI: https://doi.org/10.3390/cancers16193371. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39409991/.
RASHID, Fatima Abdul et al. Physiotherapy in head, neck, lung and breast cancer survivors: a systematic review. The Gulf Journal of Oncology, n. 44, p. 54–65, 2024. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38205574/.
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INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER (Brasil). Estimativa 2026: incidência de câncer no Brasil. 2. ed. rev. atual. Rio de Janeiro: INCA, 2026. Disponível em: Repositório Institucional do INCA. Acesso em: 28 out. 2026.
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Blog desenvolvido pelo discente de Fisioterapia Cézar Muniz Afonso Júnior

Contribuição externa:
Profa. Dra. Karoline Camargo Bragante
Currículo Lattes:
Profa. Dra. Karoline Camargo Bragante

